Competição digital, desafios reais

Pré-Moot São Paulo realiza com sucesso sua primeira edição no modelo virtual; disputa reúne 40 equipes do Brasil e do exterior

Por Sérgio Siscaro

O último fim de semana de fevereiro foi bastante especial para a comunidade brasileira que trabalha com uso de métodos alternativos para a solução de controvérsias (ADRs, em inglês). Entre os dias 27 e 28, o CAM-CCBC promoveu a primeira edição totalmente virtual do Pré-Moot São Paulo, com a participação de 40 equipes, do Brasil e de mais seis países. O evento, realizado todos os anos, prepara os vencedores para o Willem C. Vis International Commercial Arbitration Moot (Vis Moot), que acontecerá entre 27 de março e 1º de abril. Realizado tradicionalmente em Viena (Áustria), o Vis Moot também será promovido de forma virtual, por conta da pandemia do novo coronavírus.

Além de ter reunido quatro equipes a mais do que na edição de 2020, o Pré-Moot São Paulo recebeu um volume recorde de inscrições: 70 times se mostraram interessados em tomar parte da competição. Além disso, 164 árbitros estiveram virtualmente presentes no pré-moot, e o número de participantes online durante o evento foi bastante expressivo. “Tivemos cerca de 300 pessoas logadas no pré-moot – é muita gente! Além disso, registramos pouquíssimos fatores externos que pudessem afetar a competição. No final das contas, tudo aconteceu de forma melhor do que esperávamos. A equipe de Tecnologia da Informação (TI) e a organização se preocuparam bastante para que o evento ocorresse da forma mais harmoniosa possível”, avalia a assessora de Desenvolvimento Institucional do CAM-CCBC, Ana Flávia Furtado.

A assessora da Secretaria-Geral Vitoria Suman Campos concorda: “A logística do pré-moot foi pensada para que tudo transcorresse de forma tranquila para os participantes. Além de uma equipe bastante dedicada à competição, tivemos o apoio do pessoal da Secretaria-Executiva e de outros colaboradores do Centro. Foi um time muito engajado, o que permitiu que não se perdesse de vista o que acontecia no evento”, disse. “À organização coube o papel de explicar o funcionamento do evento aos participantes, para que tudo ocorresse da melhor forma possível”, complementa Furtado.

Competições como o Pré-Moot São Paulo são bastante importantes por proporcionarem a seus participantes a oportunidade de atuarem em casos de arbitragem sob condições bastante próximas da realidade. Além disso, são uma ótima oportunidade para trocar contatos com profissionais que já atuam no mercado.

Em outras edições, o CAM-CCBC concedeu aos vencedores prêmios em dinheiro, a fim de custear sua ida ao Vis Moot de Viena e ao Vis East Moot , realizado em Hong Kong (China). Como esses eventos também serão realizados de forma remota, o Centro optou por converter esses prêmios em experiências acadêmicas, tais como um curso de Direito Comparado ministrado professora Schwenzer, gift cards para a aquisição de livros, summer courses e e-readers.

Árbitros de ponta

Assim como em outros anos, o Pré-Moot São Paulo 2021 se destacou novamente pela escolha dos árbitros que participaram – incluindo, desta vez, três profissionais com vasta experiência internacional: Diego Arroyo, professor da Sciences Po, em Paris (França), e especialista em resolução de disputas internacionais; Ingeborg Schwenzer, professora de Direito Privado e Direito Comparado na Universidade da Basileia (Suíça); e Lucy Greenwood, árbitra internacional independente especializada em disputas comerciais e de investimentos. Além disso, esta edição também incluiu uma parceria com a filial brasileira do Chartered Institute of Arbitrators (CIArb), que contribuiu na convocação dos árbitros para o pré-moot. “O formato virtual garantiu a participação de árbitros com experiências bem diferentes – o que contribuiu para a diversidade do evento”, afirma Campos.

A diversidade no quadro de árbitros que participou do evento chamou a atenção de Julie Griebler, coach da equipe da UFRGS que venceu a competição. “Eles têm experiências diferentes, e visões distintas. Nesse ponto, foi uma experiência bastante enriquecedora”, avalia. Lucas Gavronski, também coach do time, complementa ressaltando o fato de os árbitros pertencerem a tradições jurídicas diferentes – o que contribuiu para dar aos participantes do pré-moot um panorama bastante amplo. “O painel da final, com a professora Ingeborg Schwenzer, é um exemplo disso: ela é alemã, baseada na Suíça, e provavelmente a maior autoridade mundial em Convenção de Viena. Já o professor Diego Arroyo é um profissional vindo da Argentina, mas que há muito tempo é uma referência em Paris; e a professora Lucy Greenwood é uma advogada renomada no Reino Unido. Essa variedade faz toda a diferença, porque é de fato o que iremos encontrar no mercado”, afirma.

Duas décadas de tradição

A equipe vencedora do Pré-Moot São Paulo 2021 foi a da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que teve como coaches Lucas Gavronski e Julie Griebler – ambos com experiência em competições anteriores. O time foi formado por Achilles Steinhaus, Ana Júlia Schenkel, Catharina Pizzio Gonzales da Cunha, Giovana Etcheverry, Helena Chagas, Lorenzo Galan Miranda, Lucas Armani Tomazi, Natália Anchete Vicente e Vitória Kreutz Werle. A equipe da UFRGS já tem uma longa história: o primeiro grupo que participou de competições de arbitragem foi formado há cerca de 20 anos pela professora Vera Fradera, e foi um dos primeiros da América do Sul a participar do Vis Moot de Viena.

Gavronski considerou o pré-moot como um treino de “altíssima qualidade”, ao proporcionar uma ótima preparação para competições internacionais. “Nos sentimos muito agradecidos pela oportunidade de participar deste que é o principal evento do Brasil nesse ciclo de preparação para o Vis Moot”, afirma. Além de ter participado de outras edições do Pré-Moot São Paulo, Gravronski também já passou por edições passadas do Pré-Moot Hamburgo, na Alemanha (que é realizado com o apoio do CAM-CCBC). “Participar do Pré-Moot São Paulo é fundamental para qualquer equipe que tenha ambições de atingir bons resultados no Vis Moot de Viena.”

Experientes com o formato digital por terem participado de competições que já adotaram esse formato no ano passado, os integrantes da equipe da UFRGS não tiveram problemas em se adaptar. O que não impediu que o inevitável nervosismo surgisse na hora de participar das provas. “Isso sempre vai existir, seja no formato presencial ou no virtual. O que temos é uma experiência completamente diferente. A transição de volta ao modelo presencial será uma experiência interessante”, avalia o participante Lorenzo Miranda. Já Vitória Werle ressalta que o modelo remoto não a afetou negativamente. “Acho que ele até diminui um pouco a tensão. Estar em uma sala frente a frente com representantes da outra parte ou com os árbitros causa mais nervosismo”, relata.

O coach Gavronski salienta que o modelo virtual permitiu um número maior de equipes, muitas das quais de outros países – tanto que a final foi disputada com uma equipe da Universidade de Lisboa (Portugal). “Certamente o formato de pré-moot digital contribuiu para que tivéssemos essa final internacional, com a participação de árbitros de renome de outros países – que certamente não poderiam participar presencialmente por conta da pandemia”, afirma.

“Foi uma honra e uma felicidade chegar à final do pré-moot do CAM-CCBC, um tribunal arbitral tão renomado e de âmbito internacional. E também gostaria de ressaltar a excelente organização do evento”, finaliza Giovana Etcheverry.

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