Investidores canadenses de olho no Brasil

Oportunidades em setores como transportes, energia, tecnologia e saneamento continuarão em 2023


Por Sérgio Siscaro

O Canadá tem encarado o Brasil como um importante destino para investimentos em infraestrutura. Mesmo entre 2017 e 2020, período no qual houve uma redução no desenvolvimento de projetos de infraestrutura no país, o total alocado em projetos cujo controlador final era canadense apresentou uma elevação de 44,4% – de US$ 10,696 bilhões para US$ 15,447 bilhões. E essa tendência continua: em 2021, o Canadá teria investido no país US$ 19,78 bilhões (considerando a participação no capital e operações entre empresas).

Mesmo com as incertezas com relação ao cenário político brasileiro, a perspectiva é de que o Brasil continue sendo um destino atraente para investimentos canadenses em 2023. A razão disso é a necessidade de se resolverem diversos gargalos na infraestrutura do país, o que viabilizaria o atendimento da demanda reprimida – tanto em sistemas de saneamento básico quanto no escoamento de produtos destinados à exportação, ou no fornecimento de energia.

Alguns exemplos das oportunidades que podem se desenhar no médio prazo são a privatização do porto de Santos – segundo maior da América Latina em movimentação de contêineres – e o escoamento de soja e milho por meio da Nova Ferroeste e da Ferrogrão, além da construção de gasodutos e expansão da malha rodoviária.

Projetos estruturantes

“O país tem a necessidade de grandes projetos estruturantes de infraestrutura para poder se desenvolver. O investimento que permitirá isso terá de vir, em boa parte, do setor privado, uma vez que o governo não tem capacidade para atuar sozinho”, afirma o coordenador da Comissão de Infraestrutura e Investimentos (CII) da Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC), Marcio Francesquine.

De acordo com ele, esse interesse canadense se aplica a diversas áreas da infraestrutura brasileira. A esse respeito, vale lembrar a movimentação dos fundos de pensão canadenses nos últimos anos, quando adquiriram o controle da empresa Evoltz, que opera seis linhas de transmissão de energia elétrica, e de parte dos blocos leiloados pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae).

“Temos aqui no Brasil quatro dos maiores fundos canadenses. Eles têm um perfil de investimentos de longo prazo – algo como 30 ou 35 anos. Isso quer dizer que a atual instabilidade política ou monetária não é obstáculo para o interesse deles em investir no país”, pondera. Ele salienta, no entanto, que um importante fator para atração de mais investimentos é a promoção de mudanças na legislação ou a continuidade das privatizações, citando como exemplo o fato de que o Marco Legal do Saneamento (lei 14.026/2020) possibilitou a atração de investimentos no setor, ao possibilitar o ingresso da iniciativa privada no segmento.

Áreas de interesse

Ao detalhar os segmentos da infraestrutura brasileira que se apresentam como mais atraentes para os investidores canadenses, Francesquine ressalta, além do saneamento básico, as áreas de energia, transportes e logística.

Além da urgência em se desatar os nós da infraestrutura brasileira, outro importante fator que poderá contribuir para a atração de investimentos canadenses é o processo de transição para uma economia com baixa utilização de carbono. Projetos que levem a uma maior utilização de fontes renováveis de energia, por exemplo, poderão ser objeto do interesse externo – como, por exemplo, parques eólicos ou solares.

“O Canadá tem uma experiência muito forte na área de cleantechs, eficiência energética e redução da pegada de carbono. O país tem uma tradição no setor que, sem dúvida nenhuma, pode ajudar o desenvolvimento desse segmento no Brasil”, avalia.

O papel da CCBC

Fiel à sua missão de estimular o aumento do intercâmbio bilateral, a CCBC promove, por meio da CII, a troca de informações e aproxima empresários brasileiros e canadenses por meio de uma série de atividades. Elas incluem palestras, seminários e identificação de oportunidades comerciais e de investimentos.

Segundo seu coordenador, a ideia é reforçar ainda mais essa atuação. “Queremos refletir na comissão os segmentos mais atuantes. Estamos elaborando a proposta de criação de subgrupos que possam desenvolver melhor a relação bilateral na área de inovação na infraestrutura. Entendemos que serão necessários não apenas investimentos, mas também a incorporação de novas tecnologias. Também estamos estabelecendo um grupo específico para tratar da questão de investimentos”, finaliza.

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