A musicista canadense que dá aulas em favelas no Rio de Janeiro

As harpas que a canadense Gianetta Baril traz para dar aulas no Brasil pesam pouco mais de 20 Kg e entram como bagagem extra nas viagens aéreas, protegidas por plástico bolha e papelão. Pesadas? Na história da arte, contudo, a imagem do instrumento é outra. A harpa parece até leve quando observada nas mãos dos anjos. Na sala de aula, trata-se da voz que os alunos de Gianetta aprendem a usar para “cantar com os dedos”, como a musicista diz. Seja qual for a melhor definição, a harpista acredita que as palavras perdem força diante do poder da música.

“Há ideias que comunicamos melhor em inglês, outras em francês, pois os idiomas possuem barreiras e estamos sempre pensando nas melhores palavras para falar o que desejamos. Na música, não há barreiras, já que mesmo sem pronunciar uma palavra comunicamos coisas muito profundas”, afirma Gianetta, com a autoridade de quem fala inglês, francês, alemão, italiano e português. O último ela aprendeu especialmente para iniciar um trabalho social em favelas brasileiras. A entrevista para esta matéria, aliás, ela fez questão de conceder toda no idioma de Heitor Villa-Lobos.

Nos seus mais de 30 anos de carreira, essa canadense de Toronto foi morar em Edmonton com a família ainda na infância. A mãe, Lucie, foi professora de coral e musicalização infantil. O pai, Armand Baril, que morreu há três anos, dedicou-se a vida inteira à música. Um de seus principais trabalhos foi como diretor musical de shows da Canadian Broadcast Corporation durante três décadas, uma espécie de BBC no país.

O primeiro contato de Gianetta com a harpa foi muito cedo. Mas como os pais decidiram matricular a filha aos cinco anos nas aulas de piano, a dedicação ao instrumento começou mesmo aos 11, quando retornava à cidade natal para as aulas com a premiada harpista Judie Loman, integrante da Orquestra Sinfônica de Toronto entre 1962 e 2004.

Em 2011, uma amiga brasileira soube que Gianetta estava planejando um ano sabático e a convidou para uma temporada no Brasil, dedicada ao projeto Ação Social pela Música. A ideia do sabático surgiu depois de uma viagem ao Nepal, onde um dos quatro filhos da harpista sofreu um grave acidente nas montanhas, que o deixou num primeiro momento paralisado e sem a fala.

Quando soube o que aconteceu, a canadense pegou o primeiro voo para dar suporte ao jovem, e foi muito bem amparada pelas pessoas que encontrou pelo caminho. Com a melhora total no estado de saúde do filho, Gianetta sentiu a necessidade de retornar um dia para retribuir a maneira como foi tratada no país asiático.

Foi aí que, na igreja que frequenta em Calgary, soube de um projeto numa fazenda no Nepal que acolhe crianças cujos pais estão cumprindo pena na prisão. Um projeto que acabou se tornando um dos seus destinos mais marcantes e trouxe uma grande lição de solidariedade.

“Antes de viajar, eu pensava que trabalharia diretamente com as crianças. Cheguei a passar um tempo com elas, mas o principal foi ajudar na colheita e na manutenção da infraestrutura da fazenda”, conta. “Numa experiência dessas você aprende a se doar por inteiro e a ajudar com o que as pessoas precisam, não necessariamente com o que você pensa de início em oferecer”.

A viagem em 2014 envolveu 28 voos entre 12 países, como Austrália, Espanha, Portugal, Itália, Fiji, Tailândia, Laos e Turquia. O convite da amiga para atuar no Brasil foi aceito. E seis meses antes da viagem Gianetta foi informada de que o projeto estava de pé, mas não havia harpa para as aulas que daria às crianças.

A partir daí a musicista liderou a iniciativa Harping for Harps, que no começo reuniu 10 mil dólares canadenses para a compra de três harpas, enviadas da França para o Rio de Janeiro. Hoje esse número chegou a dez e a canadense vem desenvolvendo ao lado de um luthier brasileiro novas harpas, com materiais que ela ajuda a escolher e importar. Até hoje os dois construíram cinco harpas. O objetivo é criar instrumentos mais em conta com padrão de qualidade internacional.

O primeiro projeto no Brasil foi realizado em Vassouras, a cerca de uma hora e meia da capital fluminense. Na Zona Sul do Rio, ela esteve na Escola de Música da Rocinha e na comunidade do Chapéu Mangueira. Também passou pelo Espaço Cultural da Grota, comunidade de Niterói, e pelos Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (Neojiba), em Salvador.

Um dos alunos do Neojiba atualmente estuda Música em uma universidade em Indiana, nos EUA. Gianetta, no entanto, considera que o maior sucesso do trabalho que realiza não tem a ver com transformar as pessoas em musicistas. “Nosso projeto proporciona disciplina, promove encontros e amizades, incentiva a criatividade, o trabalho em grupo. A ideia é que por meio dele se afastem da violência que existe nas comunidades onde vivem e conheçam novas possibilidades”, diz a canadense.

Quando começou a ensinar harpa no Brasil, Gianetta passou cinco meses no país. Hoje ela volta pelo menos duas vezes por ano para dar aulas, e no resto do tempo conversa com alunos e outros professores online para tirar dúvidas e transmitir conhecimentos. “O trabalho só faz sentido se tiver continuidade e esse é o papel dos professores. Por isso só me dedico a projetos muito sólidos”, destaca.

A relação de Gianetta com a harpa é quase metafísica. Ela explica que uma orquestra pode contar com dezenas de violinos, mas harpas são poucas, em muitos casos uma só. “Vejo como se cada criança no projeto tivesse o som de uma harpa na alma. O que cada criança pode fazer com essa harpa única? Nossa responsabilidade de ajudá-la a fazer o melhor é muito grande”, diz.

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