Mulheres no poder

Em entrevista à CCBC, a ministra das Relações Internacionais e da Francofonia do Quebec, Christine St Pierre, fala do modelo que levou ao empoderamento feminino na província e da participação das mulheres na política *Por Estela Cangerana

A necessidade de empoderamento feminino, seja na política, economia ou mesmo diplomacia, se tornou uma discussão global urgente. No Brasil, segundo dados da ONU Mulheres, por exemplo, apenas 10% dos parlamentares são mulheres. Já as diplomatas ocupam 22% dos cargos do Itamaraty, contra 78% de homens. Na economia, a diferença de salários entre os gêneros é histórica. O Canadá, por outro lado, é um dos países que saiu na frente para eliminar essas desigualdades e vem obtendo resultados muito positivos em várias de suas províncias. Nesta entrevista exclusiva, a ministra das Relações Internacionais e Francofonia do Quebec, Christine St-Pierre, fala do modelo quebequense e de como o governo local vem removendo os obstáculos ao avanço feminino.

Qual é a participação feminina na diplomacia do Quebec? O que vem sendo feito nos últimos anos para aumentar essa presença?

Aproximadamente 40% dos nossos chefes de representação são mulheres, incluindo a diretora interina do Escritório de Quebec em São Paulo, a sra. Thaís Aun que, com orgulho e dignidade, nos representa na metrópole brasileira. Além disso, a nossa pequena equipe em São Paulo é totalmente feminina! Portanto, há uma bela mistura de mulheres e homens na diplomacia quebequense.

Desde o início do meu mandato como Ministra das Relações Internacionais e da Francofonia, para mim, sempre foi importante ter uma significativa participação de mulheres em nossa rede de representações no exterior. Isso promove uma maior diversidade de pontos de vista, estimula a inovação e permite refletir de uma maneira mais adequada a imagem do Quebec no plano internacional. Referente à igualdade entre mulheres e homens ou a outras temáticas, uma diplomacia diversificada favorece as aproximações e fomenta as relações com as populações dos países onde o Quebec está presente.

 Na sua opinião, quais são os principais obstáculos que ainda persistem para o aumento da participação feminina na política e na economia?

Os obstáculos são numerosos, complexos e não devem ser subestimados: além dos desafios do equilíbrio entre trabalho e família, que frequentemente permanecem sob a responsabilidade das mulheres, existem às vezes limitações “invisíveis” que as próprias mulheres acabam por se impor. Os homens, geralmente, não questionam se possuem as qualificações para ocupar um emprego; eles se candidatam. No nosso caso, às vezes, precisamos convencer algumas mulheres de que elas são capazes de ocupar cargos de alto nível, mesmo que suas qualificações sejam óbvias.

No Quebec, temos numerosos programas e leis que favorecem o empoderamento econômico e a presença das mulheres no mercado de trabalho: a lei de igualdade salarial, que impõe aos empregadores a obrigação de corrigir a discriminação salarial; a lei da divisão igualitária do patrimônio familiar entre os cônjuges, em caso de divórcio; a criação de uma rede subsidiada de centros para a primeira infância (creches); um generoso plano de licença parental aberto a ambos os pais. Em 2008, também aprovamos uma emenda à Carta de Direitos e Liberdades Humanas do Quebec para acrescentar ao preâmbulo o princípio da igualdade entre mulheres e homens. Muito trabalho foi feito. Agora temos uma base sólida para permitir que as mulheres ocupem seu lugar nas esferas política e econômica.

Como a experiência do Quebec no empoderamento feminino pode ajudar outros governos? Como é a cooperação nesta questão, em especial entre o Quebec e o Brasil?

Nossa ação é inspirada em dois textos fundamentais: a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher, à qual nos vinculamos em 1981, e a Plataforma de Ação de Pequim de 1995. Tanto em seu próprio território como no exterior, o Governo do Quebec está trabalhando para tornar a igualdade de direito uma igualdade de fato. Foi criado o cargo de Emissário para os Direitos e as Liberdades Humanas, visando garantir que a igualdade de gênero esteja no centro da abordagem governamental quebequense nas relações internacionais. Esse Emissário deve compartilhar as nossas práticas e promover a cooperação com grupos da sociedade civil, no Quebec e no exterior.

Com o Brasil não temos relações específicas em termos governamentais nesse sentido. Mas apoiamos um projeto entre as representações do Business Professional Women (BPW) de Montreal e do Rio de Janeiro, que estão colaborando na criação de um estudo para a melhor compreensão das dinâmicas e das forças mobilizadoras de acesso à governança das mulheres nos negócios e na política, no Quebec e no Brasil, e identificando fatores limitantes culturais, sociais, econômicos e institucionais. Tive também a oportunidade de apresentar os esforços para a presença de mulheres na diplomacia de Quebec, no dia 14 de agosto em Montreal, à BPW-Montreal.

A senhora trabalhou por mais de 30 anos como jornalista e então voltou-se para a política. Ao longo de sua vida profissional, em algum momento enfrentou alguma dificuldade por ser mulher?

Essa é uma excelente pergunta. Como jornalista em um importante veículo de imprensa, tive que trabalhar arduamente para conquistar meu lugar. A atribuição de cargos era e permanece reservada para um seleto grupo de pessoas. A cobertura da cena política também era mais fácil para os meus colegas homens. A política era na época um domínio predominantemente masculino. Então, esses colegas entravam em contato com mais facilidade com os indivíduos que ocupavam posições de poder. Mas, felizmente, as coisas tendem a mudar e é bom ver mais mulheres se envolvendo na política e na cobertura jornalística.

Como ocupante de um cargo na política, devo dizer que realmente sentia que o meu gênero fazia pouca diferença. Os meus primeiros passos foram tomados na gestão do Jean Charest, antigo primeiro-ministro quebequense, que era abertamente feminista. Ele nomeou o primeiro conselho ministerial igualitário no Canadá. Ele confiava, talvez, até mais nas mulheres que nos homens.  O mesmo eu posso dizer do atual primeiro-ministro do Quebec, Philippe Couillard, que manifesta uma abertura sincera e uma vontade de integrar o maior número possível de mulheres em sua equipe.

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