Fórum discute uso da cannabis medicinal

Utilização da planta com fins terapêuticos aumenta em várias partes do mundo, e traz vantagens a pacientes de medicamentos convencionais

Por Sérgio Siscaro

O primeiro uso comprovado da cannabis para fins medicinais ocorreu no reino do imperador chinês Chen Nung, em 2.700 a.C. Na época, a planta – hoje mais conhecida por ser a base da maconha – era recomendada para o tratamento de malária, constipação e dores reumáticas, entre outros usos. Hoje, sua utilização como princípio ativo de diversos medicamentos vem aumentando ao redor do mundo: ela vem sendo indicada para o tratamento de diversos problemas de saúde, que vão do câncer e da diabetes até doenças neurodegenerativas, epilepsia e mal de Alzheimer. Com isso, diversos países vêm adaptando suas legislações e permitindo a utilização medicinal da cannabis.

Além de melhorar a situação dos pacientes, a utilização da cannabis medicinal abrirá um mercado de bilhões de dólares nos próximos anos. De acordo com estudo recente da consultoria Euromonitor, o consumo total da planta (tanto legal quanto ilegalmente) representava, em 2019, uma movimentação global de US$ 150 bilhões. Esse montante deverá atingir US$ 166 bilhões nos próximos cinco anos – e 77% desse valor será correspondente a vendas legais, que incluem o uso medicinal.

Com a finalidade de debater as oportunidades abertas para o mercado de saúde, a Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC) promoverá, em 7 de abril próximo, o Fórum Brasil-Canadá de Cannabis Medicinal. A ideia é aproveitar a experiência canadense nesse campo – o país legalizou a comercialização da cannabis para fins medicinais em 2001. Durante o evento, o tema será debatido entre pesquisadores acadêmicos, especialistas da área médica, representantes de entidades de pacientes e integrantes de órgãos governamentais, além de empresários interessados em participar desse mercado.

As inscrições para o Fórum Brasil-Canadá de Cannabis Medicinal da CCBC podem ser feitas aqui: https://www.sympla.com.br/1-forum-brasil-canada-de-cannabis-medicinal__799087

 

Acesso a conhecimento é desafio

Um dos participantes do Fórum é Wellington Briques, diretor da área de Global Medical Affairs para a América Latina da empresa canadense Canopy Growth Corporation. De acordo com ele, o principal ponto que se deve discutir com relação à utilização da cannabis para fins medicinais é a educação – e isso não só no Brasil, mas no mundo de forma geral. “Existem hoje de 15 mil a 17 mil prescrições que passaram pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] e solicitam autorização de importação da cannabis. Essas prescrições foram feitas por 1.100 médicos – ou seja, apenas 0,25% dos médicos que atuam no Brasil. Isso decorre da falta de educação e conhecimento em torno do tema”, afirma.

De acordo com Briques, a utilização da cannabis com fins medicinais ainda é muito recente, e suas aplicações não são discutidas sequer nas faculdades de medicina. “Há necessidade de parcerias com universidades para tentar preencher essa lacuna”, diz, complementando que participou de um curso na Universidade de São Paulo (USP) que reuniu 90 inscritos.

Essa carência de informações acaba impedindo que os médicos prescrevam a cannabis – que é ainda uma classe terapêutica nova. “Estamos desenvolvendo um trabalho para determinar qual deverá ser a dosagem de cannabis para o tratamento de dores. Vamos trazer especialistas do mundo inteiro, inclusive do Brasil, ao Canadá, em abril. Mas ainda faltam estudos clínicos como os que temos em outros tipos de medicamento. Isso ainda está acontecendo – mas já iniciamos esse processo”, informa.

Ele acrescenta que a cannabis traz a grande vantagem de, em alguns tratamentos, substituir medicamentos convencionais que causam uma série de efeitos colaterais nos pacientes – como nos casos de esclerose múltipla ou epilepsia. “Isso é possível em diversos casos. E, quanto mais evidência científica nós tivermos, mais efetivo poderá ser o tratamento.”

Briques acredita que deverá haver muita disponibilidade do extrato de cannabis no Brasil a partir do segundo semestre, se os pedidos de importação foram aceitos. “Isto vai contribuir para reduzir por aqui a imagem negativa da planta. Mas é necessário que se deixe bem claro à sociedade a diferença existente entre a cannabis medicinal e a recreativa.” Briques também conta que se trabalha muito na Canopy a questão da comunicação sobre a cannabis medicinal – que, apesar de ser utilizada há tantos anos no Canadá, ainda gera um certo estigma social. “Temos que ter muito cuidado com a linguagem. Mas o estigma tende a desaparecer quando as pessoas entenderem a diferença entre uma coisa e outra”, afirma.

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