Telemedicina em tempos de Covid-19

Pandemia evidencia vantagens do atendimento remoto para médicos e pacientes

 Por Sérgio Siscaro

O “novo normal” que deverá surgir após o fim da atual pandemia da Covid-19 deverá intensificar a utilização de ferramentas de comunicação via internet em diversas áreas. Além do comércio de bens e serviços, outras atividades também deverão ser intermediadas pelo meio digital, com o incentivo do home office e da educação à distância. Da mesma forma, a telemedicina deverá ocupar um papel muito mais destacado no dia a dia das pessoas de agora em diante.

Já praticada há anos no Canadá, Estados Unidos e Europa, a telemedicina inclui modalidades que incluem:  teleconsulta (consulta médicas feitas aos pacientes), teleconsultoria (esclarecimentos e orientações), telediagnóstico (apoio para laudos de exames complementares), teleinterconsulta (interação entre médicos) e telemonitoramento (acompanhamento à distância de parâmetros corporais). Essas ferramentas utilizam tecnologias diversas, tanto de comunicação remota quanto de inteligência artificial.

A prática da medicina online ganhou espaço no Brasil por conta da disseminação do novo coronavírus. Em março, o governo autorizou a prática de teleconsulta durante a crise sanitária por meio da lei 13.989/2020, da portaria do Ministério da Saúde 467/2020 do Ministério da Saúde; e do ofício 1756/2020 do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Para discutir o assunto, colocando em pauta as experiências que têm sido realizadas nos últimos meses em telemedicina e a perspectiva de uma liberação mais abrangente da prática na legislação brasileira, a Comissão de Inovação em Saúde da Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC) promoveu em 28 de maio o webinar Telemedicina na Era da Covid-19. Na ocasião, o estado atual do tema e suas tendências foram discutidos pelo coordenador do Programa de Educação em Telemedicina para Médicos da Associação Paulista de Medicina (APM), Jefferson Fernandes; pelo diretor médico da Teladoc Health, Caio Seixas Soares; e pela diretora de sinistros de saúde da SulAmérica, Erika Fuga.

Novo horizonte regulatório

Fernandes salientou que a chegada do novo coronavírus acelerou o processo de familiarização da população com os benefícios da telemedicina – e também tem levado a avanços do ponto de vista regulatório. “A resolução que há anos vigorava era de 2002. Com a Covid-19, surgiu uma nova orientação, autorizando a utilização da telemedicina para a orientação dos pacientes, para a troca de informações entre médicos e para o monitoramento. Ficou de fora a teleconsulta, quando o médico atende diretamente o paciente. Mas isso foi rapidamente corrigido pelo Ministério da Saúde, que acabou autorizando também essa modalidade, extremamente importante no contexto de uma pandemia. E, em abril, essas disposições tornaram-se lei”, afirma.

De acordo com ele, essas disposições regulatórias deverão permanecer, mesmo após a crise criada pelo novo coronavírus. “Fizemos na APM uma pesquisa entre médicos, e constatamos que a maioria era favorável à telemedicina. E a experiência que está acontecendo agora irá quebrar a resistência dos médicos em utilizar essas ferramentas. Não é possível voltar para trás.”

Fernandes ressalta a necessidade de capacitação dos profissionais da saúde para trabalharem com telemedicina. “Não é um bate-papo diante da tela. Há todo um caminho que se deve seguir para estabelecer uma boa relação médico-paciente por meio de plataformas online. Nesse sentido, estabelece um curso de capacitação na APM, que tinha mais de 500 médicos. Lá são explicadas as características da telemedicina e a forma de se relacionar com os pacientes – a postura, a forma de passar confiança aos pacientes, e uma série de questões que devem ser consideradas de forma responsável”, afirma.

Agilidade e segurança

Ao tratar das características da telemedicina no Canadá, onde a modalidade já é praticada há anos, Soares pondera que, até pela proximidade com a cultura dos Estados Unidos, o canadense já tem mais familiaridade com a telemedicina. “Isso ajuda no desenvolvimento das tecnologias, das ferramentas e do acesso a esses serviços”, afirma.

Para Soares, a Covid-19 acabou levando à uma rápida necessidade de se contar com modalidades de atendimento médico à distância – e essa tendência deverá se manter. Ele conta que o aumento percebido pela Teladoc Health após 15 de março – quando passou de uma média de 500 atendimentos diários para algo em torno de 5 mil – é prova dessa mudança de comportamento por parte tanto de médicos quanto de pacientes. “A pandemia acelerou a regulação da atividade, uma vez que foi aberta a possibilidade de se utilizar as ferramentas da telemedicina durante a crise. Além disso, como o distanciamento social é atualmente a regra, o método é ideal para continuar oferecendo serviços médicos à população”, afirma.

Ele estima que alguns fatores deverão incentivar a expansão da telemedicina, como o aumento no uso das tecnologias digitais, a maior disposição das pessoas em compartilhar seus dados pessoais, e a proliferação de meios digitais de acesso a remédios ou serviços de cuidados médicos. “O estímulo ao uso de ferramentas que garantam segurança e privacidade, tanto para médicos quanto para pacientes, é um dos pontos que impulsionou a utilização da telemedicina no Canadá – e deverá ser aqui no Brasil”, salienta.

Experiência positiva

Apesar de não haver ainda a regulamentação para o exercício da telemedicina, a SulAmérica iniciou no final de 2018 suas primeiras atividades nesse campo – com destaque para o serviço de orientação médica por vídeo. “Fomos pioneiros entre as operadoras em colocar esse serviço em nosso aplicativo – começando com o atendimento em pediatria e depois incluindo o clínico-geral. Apesar de não fazermos a consulta nesse estágio, já iniciávamos esses atendimentos remotos”, conta Fuga.

De acordo com ela, essas experiências colocaram a operadora em uma posição favorável em termos de deter o conhecimento necessário para o uso dessa modalidade de atendimento. “Quando surgiu a legislação que liberou a teleconsulta durante a pandemia, nós tivemos a oportunidade de avançar muito rapidamente. Nosso beneficiário hoje pode acessar, por meio de um botão específico para a Covid-19, uma jornada completa, iniciando em uma triagem inicial até uma consulta remota com um médico. Em paralelo, também pudemos rapidamente habilitar os médicos em nossa rede credenciada a usarem a plataforma de teleconsulta.”

A SulAmérica oferece atualmente um arco de atividade em telemedicina que se inicia com a triagem dos pacientes com suspeita de Covid-19, feita por meio de aplicativos específicos, passando por atendimento telefônico ou pela internet, até teleconsultas eletivas. “Mais recentemente, passamos a oferecer também serviços em especialidades não-médicas – como psicólogos, fonoaudiólogos e fisioterapeutas, por exemplo”, afirma.

A diretora avalia que o cenário atual, que inibe a movimentação das pessoas por conta da prevenção de contaminação com o novo coronavírus, tem mudado o comportamento dos beneficiários da SulAmérica, tornando-os mais receptivos às soluções de telemedicina. “Eles passam a percebê-la como uma alternativa segura, ágil e disponível. Uma prova disso é o aumento na utilização dessas soluções por nossos usuários; com a pandemia, o número de acessos aumentou de dez a 15 vezes, e os níveis de satisfação dos beneficiários são bastante altos”, assinala.

Atuação da Comissão de Inovação em Saúde

Formada por médicos, farmacêuticos, pesquisadores, advogados, especialistas em regulamentação e empresas do setor, a Comissão de Inovação em Saúde (CIS) da CCBC promove encontros periódicos para discutir o cenário do setor e levantar as oportunidades dos mercados canadense e brasileiro. O estímulo ao incremento das relações bilaterais na área também acontece por meio da participação em feiras e congressos, além da organização de seminários e eventos diversos. Paralelamente são produzidos conteúdos especiais por meio de publicações exclusivas, abordando temas relevantes.

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