Muito além de uma obrigação humanitária

Inserção de refugiados no mercado de trabalho gera benefícios econômicos, sociais e culturais para as comunidades de acolhida.  Intercâmbio de experiências entre Canadá e Brasil vem estimulando iniciativas.

Por Estela Cangerana

O ano de 2020 terminou com o maior número já registrado de pessoas em deslocamento forçado, ou seja, que foram obrigadas a buscar abrigo fora de seus lares, dentro ou fora de seus países, segundo a Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). Foram 82,4 milhões de cidadãos no mundo todo, o equivalente a uma em cada 95 pessoas do planeta. No Brasil, foi atingida a marca de 60 mil pessoas reconhecidas como refugiadas, 26 mil delas somente no ano passado, pelos dados do Ministério da Justiça.  O acolhimento dessa população pode constituir um ganho multicultural para as economias envolvidas, uma área em que o Canadá tem grande expertise e vem apoiando iniciativas também no Brasil.

Na prática, a proposta de muitos desses projetos é promover a integração do refugiado à sociedade local, para que ele possa participar e, inclusive, contribuir com suas capacidades para o desenvolvimento da região em que se encontra, em uma visão oposta à ideia equivocada de que a integração dessas pessoas traz um fardo social às comunidades. A visão canadense prega exatamente isso: migrantes e refugiados, quando têm a oportunidade de fazê-lo, podem desempenhar um papel fundamental nas comunidades de acolhida que os hospedam ou reassentam.

Entre as instituições brasileiras que compartilham essa maneira de atuação estão, por exemplo, as ONGs Migraflix e Instituto Adus, as quais já contaram com o apoio do governo canadense em São Paulo. A proposta da primeira é fomentar o empreendedorismo entre os migrantes na América Latina, pelos meios gastronômico e cultural, gerando renda e estimulando as relações entre as pessoas de diferentes origens. O próprio fundador, Jonathan Berezovsky, é um argentino que migrou para o Brasil, neto e bisneto de refugiados do Leste Europeu. Os programas da Migraflix incluem projetos como o Migralab e o Meu Amigo Refugiado.

Empregabilidade

Já o instituto Adus atua fortemente na capacitação e inserção econômica e social dos refugiados. São oferecidos cursos de língua portuguesa e treinamentos para adequação ao mercado de trabalho brasileiro, incluindo questões como adaptação de currículo ao modelo praticado no Brasil, orientações sobre legislação trabalhista e a cultura de negócios local, entre outras. Ao mesmo tempo, o instituto se relaciona com as empresas para levar informações e buscar oportunidades para essa população.

“Além dos 60 mil refugiados no Brasil, há uma fila de cerca de 130 mil pessoas solicitantes dessa condição no país. Cerca de 20% deles tem graduação, completa ou incompleta. Muitos possuem formação profissional e eram atuantes em seus países. É um enorme contingente de pessoas economicamente ativas e que poderiam contribuir em vários setores. Mas, infelizmente, muitas empresas ainda enxergam no refugiado apenas o trabalho braçal”, afirma Marcelo Haydu, diretor executivo do instituto.

Ele lembra, por exemplo, de características desses profissionais que muitas vezes passam despercebidas e que poderiam ser úteis a empresas internacionais, como o conhecimento de outras línguas, culturas e mercados. “A temática do refúgio ainda é tratada de forma marginal no Brasil. Nosso trabalho tem sido sensibilizar a sociedade civil para seu papel fundamental nessa área”, completa Haydu.

No ano passado, com a pandemia de Covid-19, todas as atividades do Adus precisaram migrar para o meio digital, e apoios como o da Prefeitura de São Paulo e do Consulado Geral do Canadá foram fundamentais para possibilitar essa transição. O relacionamento do governo canadense com o instituto brasileiro existe desde 2018 e o apoio às ações ganhou contornos efetivos a partir do ano seguinte, quando o Adus foi contemplado em um edital da representação governamental.

Política de Estado

Hoje o Canadá é um dos maiores líderes internacionais no tratamento de questões de migração e no fornecimento de suporte técnico e financeiro a ações relacionadas ao tema. O governo acredita que a migração internacional, além de criar vínculos importantes em uma economia global, também aumenta a riqueza sociocultural e econômica da sociedade canadense.

“O Canadá reconhece a importância da inclusão e da diversidade, e promove esses valores por meio de nossos esforços de assistência internacional, reassentamento e integração de refugiados e imigrantes”, afirma Dra. Heather Cameron, cônsul-geral do Canadá em São Paulo. O sucesso do modelo canadense na acolhida e integração de refugiados está baseado em dois programas: o Canada Settlement Program, para pessoas que já chegaram ao país, e o Resettlement Assistance Program, para refugiados reassentados. Ambos têm o intuito de fornecer todas as condições para o início de uma nova vida, incluindo moradia, treinamento de idioma, emprego, creche, transporte e acesso a grupos de apoio, entre outros.

As iniciativas do Canadá com o Brasil vêm de alguns anos e ganharam reforço desde o início da crise na Venezuela, que disparou um novo fluxo migratório. “O governo do Canadá forneceu R$ 1,6 milhão em financiamento direto para apoiar 16 projetos locais de ajuda a migrantes e refugiados venezuelanos em 12 estados brasileiros nos últimos cinco anos. Além disso, trabalhamos em conjunto com o governo brasileiro para discutir questões de mobilidade e refugiados, bem como o estabelecimento de iniciativas colaborativas nessa área”, complementa a cônsul-geral.

Atualmente, a grande maioria de refugiados ou solicitantes de refúgio no Brasil vem da Venezuela (60% dos pedidos de refúgio em 2020 segundo o Ministério da Justiça). Na sequência, a lista de países de origem dessas pessoas contempla Haiti, Cuba, China, Angola, Bangladesh, Nigéria, Senegal, Colômbia e Síria.

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