Fundos canadenses de olho no Brasil

Investimentos nos setores de energia elétrica e de saneamento básico mostram capacidade da infraestrutura brasileira em atrair recursos

Por Sérgio Siscaro

O Brasil iniciou 2021 emitindo sinais de que deverá passar por um processo de retomada econômica ao longo do ano, como demonstrado pela alta de 1,2% no Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre. Já os investimentos diretos no país (IDP) do primeiro quadrimestre totalizaram US$ 21,253 bilhões – 49% a mais que entre janeiro e abril de 2020.

Estes indicadores sinalizam um bom cenário para investidores externos em busca de oportunidades – especialmente no setor de infraestrutura, que historicamente apresenta necessidade de aportes para sustentar o crescimento da economia. Antecipando-se a essa tendência, fundos de pensão canadenses já vinham apostando nas potencialidades do setor no país, e dois deles intensificaram sua presença por aqui.

O fundo de pensão dos professores de Ontário, o Ontario Teachers Pension’s Plan (OTTP), recentemente adquiriu da gestora TPG Capital o controle da empresa Evoltz, que opera seis linhas de transmissão de energia elétrica no Brasil. Já o Canada Pension Plan Investment Board (CPPIB) assumiu o controle de 45% da Iguá Saneamento, que arrematou no final de abril um dos blocos leiloados da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae).

De olho na descarbonização

Se a compra da Evoltz revela uma estratégia do OTTP de se fazer presente no setor elétrico (o fundo já havia comprado 40% do capital da distribuidora finlandesa Caruna), também mostra a capacidade da infraestrutura brasileira em atrair investidores. De acordo com o diretor de Comunicações Externas do OTTP, Dan Madge, o fundo está constantemente buscando por oportunidades alinhadas à sua estratégia de investimentos. “Do ponto de vista da sustentabilidade, o setor de transmissão de energia é particularmente atraente graças à sua importância no processo de descarbonização da economia, e, no Brasil, à prevalência de fontes de energia renovável”, afirmou.

“Transformar a Evoltz em uma empresa atraente para novos investidores era um objetivo para a TPG desde que a empresa adquiriu ativos em recuperação judicial. Esse é o papel básico de um fundo de private equity. A chegada do OTPP como acionista concretiza esse feito”, afirma o CEO da Evoltz, João Nogueira Batista. Segundo ele, em menos de três anos a empresa se consolidou como um importante player em linhas de transmissão de energia no país, Brasil, operando sete concessões com mais de 3.500 km de linhas de transmissão. “A partir da aprovação da transação, a Evoltz estabelecerá junto com a OTTP a um plano estratégico de crescimento. O setor apresentará diversas novas oportunidades de crescimento ao longo do tempo, por meio de leilões”, complementa.

A compra da Evoltz pelo OTTP foi o primeiro investimento feito diretamente pelo fundo no Brasil. O valor da transação não foi revelado.

Saneamento sustentável

No final de abril foi realizado o leilão de ativos da Cedae, e seu Bloco 2, que engloba as áreas de Barra da Tijuca, Jacarepaguá e outros dois municípios, foi arrematado por R$ 7,286 bilhões pela Iguá Saneamento – empresa que tem como detentor de 45% de seu capital o CPPIB desde o início do ano. O fundo, que já atuava no Brasil desde 2014 como sócio de empresas como Votorantim e Cyrela, fez um aporte de R$ 1,178 bilhão para concretizar a operação. A Iguá já tem entre seus acionistas a canadense Alberta Investment Management Corporation (AIMCo).

Na avaliação de Rodolfo Spielmann, head do CPPIB para a América Latina, o investimento se deve à alta demanda por serviços de tratamento de água e saneamento básico no Brasil. “O setor oferece a perspectiva de um retorno consistente e estável, e é perfeitamente compatível com nossos interesses como investidores de longo prazo”, afirma. Ele acrescenta que, com as mudanças trazidas pelo marco legal do saneamento, cerca de mil municípios em todo o país deverão privatizar ou buscar concessionárias nos próximos anos. “Acreditamos que a Iguá está bem posicionada para ser um forte competidor nos novos leilões que serão realizados.”

Do lado da Iguá, a chegada do fundo é bastante bem-vinda, podendo inclusive fazer com que a empresa avance em seus esforços de atuar de acordo com uma agenda ambiental, social e de governança (ESG, na sigla em inglês). “O ingresso do CPPIB amplifica a estratégia ESG da Iguá, alavancando a perspectiva de criação de valor da companhia e reforçando a visão da companhia de ser um dos líderes nesse tema no setor na América Latina”, afirma o CEO Carlos Brandão, lembrando que a empresa faz parte do Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU) desde 2020.

Para ele, o CPPIB também contribuirá para os planos da Iguá com relação ao Bloco 2 da Cedae. “Os recursos virão essencialmente de um aporte adicional dos acionistas, principalmente do CPPIB e da AIMCo, e de financiamento. A empresa já tem um empréstimo-ponte negociado com bancos privados para fazer frente à necessidade imediata de recursos até a contratação dos instrumentos definitivos”, detalha.

Perspectivas futuras

Se a economia brasileira apresenta sinais de recuperação, outros sinais podem causar preocupação para investidores – como a insegurança jurídica dos contratos, trazida pela instabilidade política. Contudo, para o coordenador do curso de Ciências Econômicas da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), Paulo Dutra Costantin, esse fator não teria mais tanto peso, em razão das reformas que vem sendo feitas na economia.

“Outro dia o ministro Paulo Guedes [Economia] disse que o Brasil está barato por conta do câmbio. Eu concordo; este é um estímulo interessante para investidores estrangeiros comprarem empresas brasileiras. Tivemos também algumas mudanças institucionais, como a reforma trabalhista, no governo Temer, e depois a da Previdência, para conter os gastos públicos”, salienta Constantin.

Para ele, existiria hoje um consenso maior em torno da necessidade de estabilidade monetária e fiscal, e de alterações que contribuam para reduzir o custo da mão de obra no país. “Também é importante a autonomia do Banco Central, que agora tem a função de cuidar do valor da nossa moeda – independentemente de quem estiver sentado na cadeira da Presidência. Isso é uma garantia de que o governo não fará política monetária populista. Agora precisamos fazer a reforma fiscal”, complementa. “Essas mudanças tornam mais atrativa a vinda de investimentos externos para o país. Resolvermos a questão da insegurança jurídica é o que vai garantir a entrada de capital estrangeiro de longo prazo aqui no Brasil.”

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