Diferentes, mas iguais: os desafios da pandemia para brasileiras e canadenses

COVID-19 evidenciou que ainda há muitos obstáculos para a igualdade de gênero no mercado de trabalho, mas também acelerou evolução

Por Estela Cangerana

A luta pela igualdade de gênero ganhou novos contornos durante o ano passado. O isolamento social causado pela pandemia escancarou que até altas executivas ou mulheres de países que são exemplos em diversidade ainda são muito mais afetadas que seus pares homens, e carregam maiores fardos. Tanto no Canadá como no Brasil, os impactos dessa realidade estão obrigando o mercado de trabalho a buscar modelos mais inclusivos. O lado positivo de tudo isso pode ser a aceleração de um processo de metamorfose tanto do mundo corporativo quanto das cobranças internas das próprias profissionais.

“As mulheres foram obrigadas a se transformar e a transformar suas expectativas. O impacto psicológico de tudo o que vem acontecendo é muito grande. Todos sairemos mudados e, nesse contexto, as empresas têm um papel importante de oferecer apoio e entender o ambiente que está se formando”, afirma a advogada Esther Nunes, ex-presidente da CCBC e co-coordenadora da Comissão de Diversidade da Câmara.

Segundo ela, “mais do que contratar os grupos menos representativos, o desafio é incluir de verdade no ambiente corporativo”. Nunes explica que é preciso entender as necessidades e acolher, o que pede um processo de mudança comportamental e cultural dos dirigentes. “Muitas empresas têm dificuldades para criar e implementar seus programas de acolhimento, mas esse é um caminho sem volta”, destaca.

As estatísticas mostram uma debandada de mulheres do mercado de trabalho no ano passado. Não apenas por demissões por iniciativa das empresas, mas também por vontade das próprias trabalhadoras ou pela decisão das demitidas de não voltar a buscar uma nova colocação. Esse movimento e as consequências econômicas e sociais dele forçam a reflexão.

No Canadá, país reconhecido mundialmente pela inclusão da diversidade, estudos do Royal Bank of Canada (RBC) mostram que, em questão de poucos meses, houve o maior retrocesso na participação feminina no mercado nos últimos 30 anos. Em 2019, ano anterior à crise, 61,4% das mulheres acima de 15 anos faziam parte da força de trabalho do país. No começo da pandemia, ainda em fevereiro de 2020, esse percentual já havia caído para 55,5%, dando indícios de um cenário que se agravou nos meses posteriores.

“As mulheres continuaram deixando a força de trabalho mesmo quando os homens retornaram a ela”, destaca o banco em relatório. Entre fevereiro e outubro, 20,6 mil mulheres saíram do mercado canadense, enquanto 68 mil homens entraram. Entre as faixas etárias mais prejudicadas, estão as de 20 a 24 anos e de 35 a 39 anos.

No Brasil, o retrocesso também foi de três décadas. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no terceiro trimestre de 2020, a participação das mulheres na força de trabalho brasileira era de 45,8%, o menor índice desde 1990. A queda no número das profissionais no mercado foi maior que a registrada por homens na pandemia. As maiores prejudicadas: as mães com filhos até dez anos. O índice das que estavam empregadas ou procurando trabalho despencou de 58% no terceiro trimestre de 2019 para cerca de 50% em 2020.

Sem distinção de classes

Esther Nunes destaca o fato de que todas as mulheres, independentemente da função, formação ou estrato social estão sofrendo os impactos do cenário atual e necessitando rever conceitos. “As classes mais baixas obviamente tiveram um ônus maior pela queda do rendimento, que se somou a todos os outros problemas. As executivas não sentiram tanto a diminuição na receita, nos casos em que ela ocorreu, mas tiveram que enfrentar outros desafios, com os quais, muitas vezes, nunca imaginaram lidar”, afirma.

“Para poderem se dedicar à carreira, antes da pandemia, essas profissionais contavam com redes de apoio muito grandes e estruturadas, que tocavam partes de suas vidas sem que elas precisassem se envolver diretamente, como babás, empregadas, escolas. De repente, se viram sem nada disso”, completa. A pressão e o sentimento de não se capaz de dar conta de tudo geraram grandes frustrações, ansiedade, depressão e outros distúrbios mentais.

O estudo Women in the Workplace 2020, da consultoria McKinsey & Company, que está em sua sexta edição, retrata bem essa realidade. O documento destaca a importância de compreender a intersecção dos impactos da Covid-19 nas experiências das mulheres, o movimento de saída das mães do mercado de trabalho e o risco das empresas de perder mulheres na liderança.

“Entre 2015 e 2020, observamos um progresso lento, mas constante, na representação das mulheres. (…) Agora a crise do COVID-19 ameaça apagar os ganhos dos últimos seis anos”, diz a pesquisa, que detectou a saída de 2 milhões de mulheres do mercado norte-americano ao mesmo tempo. Foi a primeira vez que a saída feminina teve uma taxa mais alta que a masculina.

Muitas das que saíram são mães. De acordo com a pesquisa, uma em cada três mães se sentiu tentada a recuar ou abandonar sua carreira em 2020. Já as executivas nunca estiveram tão pressionadas no trabalho e em casa. A consultoria lembra que, geralmente, as mulheres já buscam ter performances mais altas que seus pares masculinos e costumam se culpar mais por falhas. No cenário atual, com desafios ainda mais pesados, elas enfrentam críticas maiores e julgamentos injustos.

Para a McKinsey, as empresas não podem se dar ao luxo de perder essas profissionais, sob o risco de ter impactos financeiros significativos. Para sair dessa encruzilhada, precisarão tornar o ambiente corporativo mais sustentável, com flexibilização de normas, revisão de indicadores de performance e medidas para minimizar preconceitos de gênero. Será necessário ainda fortalecer a comunicação, com suporte e acolhimento aos profissionais.

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