CCBC discute oportunidades do agronegócio

Primeira edição de fórum reúne especialistas brasileiros e canadenses

Por Sérgio Siscaro

O setor agropecuário é o principal gerador de riquezas do Brasil. Reconhecendo a pujança do setor para as relações comerciais do Brasil, bem como sua capacidade de atrair investimentos externos ou se beneficiar de experiências e soluções desenvolvidas em outros países, a Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC) promoveu a primeira edição do Fórum Brasil-Canadá de Agricultura. Nada é mais natural: afinal, em 2020 as exportações brasileiras de produtos agropecuários somaram US$ 530 milhões (29,5% a mais que em 2019), com predominância de itens como açúcar, café e carne de aves, entre outros. Com isso, o setor respondeu no ano passado por 12,5% de todas as vendas do Brasil ao Canadá.

Realizado em conjunto com a sua homóloga canadense, a Brazil-Canada Chamber of Commerce (BCCC), e com o apoio tanto da Global Affairs Canada, da embaixada do país no Brasil, quanto do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o evento aconteceu de forma online em quatro dias, distribuídos ao longo de três semanas entre maio e junho.

Posição de destaque

Beneficiando-se dos ganhos em produtividade obtidos nas últimas décadas, graças ao emprego de técnicas e equipamentos mais modernos, o setor aumentou expressivamente sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Dados calculados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), e pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), indicam que o setor respondeu em 2020 por 26,6% do PIB – o equivalente a quase R$ 2 trilhões.

O mesmo desempenho positivo verifica-se na pauta de exportações brasileiras. Em 2020, o setor foi responsável por vendas externas de US$ 100,8 bilhões, 4% a mais que em 2019. Os principais produtos foram soja em grãos (28,3% do total), carne bovina in natura (7,4%) e açúcar de cana em bruto (7,35%).

Perspectivas positivas

A programação do fórum buscou oferecer aos participantes uma visão geral dos principais fatores relacionados ao agronegócio brasileiro, com ênfase no potencial de negócios com o Canadá. O primeiro dia (18 de maio) voltou-se especificamente às relações entre os dois países no que se refere à agropecuária – comércio bilateral e oportunidades de investimentos. A abertura do evento coube ao presidente do Conselho da BCCC e sócio da KPMG Canada, Daniel Ricica; e do presidente da CCBC, Ronaldo Ramos. Em seguida, o embaixador do Brasil no Canadá, Pedro Borio, defendeu a construção de uma parceria produtiva entre os dois países no setor agrícola.

Já o papel do agronegócio para as economias brasileira e canadense foi lembrada pela ministra brasileira da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, por meio de uma mensagem gravada, enviada especialmente para o evento. “Com a perspectiva de superação dos desafios impostos pela pandemia, devemos buscar retomar os planos que ficaram adormecidos, buscar novas oportunidades para crescermos, e concretizar a recuperação do pós-Covid. Brasil e Canadá são países com muito em comum. Temos população diversificada, grande extensão territorial, e compartilhamos valores como liberdade e democracia. Além disso, a agricultura tem papel fundamental nas nossas economias. Somos parceiros na missão de alimentar o mundo, com a geração de emprego e renda para nossos produtores rurais”, afirmou. “O comércio de produtos agrícolas entre nossos países continua aquém de seu potencial; daí a importância de eventos como este, no qual podemos conhecer um pouco mais sobre as oportunidades de negócios entre os dois países, neste setor tão dinâmico, desafiante e apaixonante.”

Participaram ainda a chefe da seção comercial da embaixada canadense no Brasil, Bonny Berger; o diretor-geral interino do Secretariado de Acesso a Mercados da Agência Canadense de Inspeção de Alimentos (CFIA, na sigla em inglês), Luc Rivard; o adido de agricultura na embaixada brasileira no Canadá, Paulo Araújo; o presidente para as Américas do grupo JBS, Wesley Batista Filho; e o líder regional para a América Latina da Nutrien, André Dias.

Parceiros naturais

As relações entre os dois países foram aprofundadas na sessão seguinte (25 de maio), com as apresentações da responsável pela área de relações internacionais na CNA, Lígia Dutra; do CEO da InterPOC – Global Trade and Investment, Gustavo Zentner; e do professor sênior de Agronegócio Global na Insper, Marcos Jank. “Brasil e Canadá têm vantagens competitivas no setor agrícola. Os dois países são complementares, e não rivais, no mercado internacional”, avaliou este último ao apontar áreas em que os dois países poderiam ter uma colaboração mais próxima – como no fortalecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC), no intercâmbio científico e na construção de cadeias de valor integradas voltadas aos desafios globais em termos de segurança alimentar.

O bloco seguinte trouxe histórias de sucesso de empresas brasileiras e canadenses, com depoimentos dos executivos Marcelo Corrêa (CEO da Marcelo Correa Consulting), Flávio Ferreira (CEO da BR4 Trade Corporation), Rob O’Sullivan (vice-presidente de vendas para as Américas da Clearwater Seafoods) e Sydney Bratt (gerente-geral da Gourmand Alimentos). Na sequência, os desafios logísticos aos importadores e exportadores foram objeto de um debate entre o gerente de marketing de vendas da DN+ Logística Internacional, John Kirkup; o diretor-executivo da CIFFA, Bruce Rodgers; e a gerente de desenvolvimento de cargas do Porto de Saint John, Shannon Blanchard.

O encerramento do dia foi feito pela ministra de Agricultura, Aquicultura e Pesca da província de New Brunswick, Margaret Johnson. “Nossa província tem um setor agrícola bastante diversificado, e exporta para 75 países, incluindo o Brasil. Certamente poderemos aumentar o volume de exportações de alguns dos produtos que vendemos para o mercado brasileiro”, afirmou.

Tecnologia e sustentabilidade

O terceiro dia (26 de maio) apresentou um foco mais voltado às oportunidades trazidas pela tecnologia às atividades agropecuárias, por meio de produtos e soluções desenvolvidos pelas startups que atuam no setor (as chamadas agritechs) ou pela cooperação de órgãos de pesquisa. Participaram a sócia para o mercado de agronegócio da consultoria KPMG Brasil, Giovana Araújo; o coordenador do Laboratório Virtual no Exterior (Labex-USA) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Alexandre Varella; a vice-cônsul e comissária de comércio IST no consulado do Canadá em São Paulo, Marie-Helene Beland; a conselheira de tecnologia industrial do National Research Council of Canada Industrial Research Assistance Program (NRC IRAP), Ronda Gosselin; a assessora da presidência da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) responsável por ações de cooperação internacional, Denise Neddermeyer; a coordenadora-adjunta de pesquisa para inovação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Luciana Hashiba; o fundador da Bionergy Consulting, Marco Ripolli ; o diretor-executivo da Agrihub, Otávio Celidono; o professor da EsalqTec, Sérgio Pascholati; a sócia da SPVentures, Ariadne Caballero; a CEO e co-fundadora da LWR, Karen Schuett; o fundador da Fabrique A, Sylvain Ethier; o director da Zone Agtech, Olivier Demers-Dubé; e o sócio da Cescon Barrieu, Luiz Felipe Di Sessa.

A importância crescente da sustentabilidade foi debatida no quarto e último dia do fórum (2 de junho). Os principais desafios do setor agropecuário em seguir padrões alinhados às práticas ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês), foram discutidos ao longo da sessão pela diretora de sustentabilidade da Proactiva, Dulce Meldau Benke; o conselheiro especial de questões socioambientais do Ministério da Agricultura, João Adrien; a economista da Export Development Canada, Andrea Gardella; o diretor da Climate Policy Initiative, Juliano Assunção; o diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), André Guimarães; o diretor de sustentabilidade do Consumer Goods Forum, Ignacio Gavilan; a diretora-executiva da Conexsus, Carina Pimenta; o diretor de política e relações institucionais do Instituto BVRio, Beto Mesquita; o gerente da Cocoa Action, Pedro Ronca; a presidente do Mandala Group, Paola Saad; o sócio do escritório Cescon Barrieu, Luciano Souza; e o sócio para legislação ambiental do escritório BMA Law, Márcio Pereira.

As apresentações dos quatro dias do Fórum Brasil-Canadá de Agricultura podem ser acessados no site da BCCC.

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