Canadá: governança na prática

CCBC apoia missão do IBGC que promoveu imersão na cultura corporativa do país


Por Sérgio Siscaro

Ao estabelecer suas iniciativas para 2022, a Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC) deixou bem claro que continuaria a incentivar negócios e soluções de caráter inovador, que fossem sustentáveis tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico e social, que seguissem boas práticas de compliance e que promovessem a diversidade. Esta forma de atuar, alinhada com as práticas adotadas pela Câmara desde antes da agenda ambiental, social e de governança (ESG, na sigla em inglês) ganhar espaço no país tem permeado todas as iniciativas da CCBC. 

Isto inclui o apoio a ações que contribuam para disseminar uma cultura de compliance no Brasil, com adesão às melhores práticas de governança corporativa disponíveis no mercado. Uma dessas iniciativas foi a 11ª edição da Jornada Técnica promovida pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que levou 60 empresários brasileiros ao Canadá, entre 30 de maio e 16 de junho. 

Diversidade temática

O Canadá apresenta, há muitos anos, diversas características que o qualificam como um país com uma cultura de governança mais amadurecida. A missão, que estava originalmente prevista para ocorrer em 2020 (mas que foi adiada em razão da disseminação da pandemia da Covid-19), possibilitou aos participantes vivenciar e trocar experiências sobre governança naquele país por meio de visitas técnicas nas cidades de Toronto e Montreal. 

Além disso, a escolha do país decorreu das análises feitas por um grupo de estudos do IBGC, que foi abastecido com informações fornecidas pela CCBC. O trabalho prévio realizado pelas duas entidades permitiu que se estabelecessem os pilares que balizariam a programação da missão ao Canadá: inovação, finanças, setor privado e academia.

A partir deles seria estudado como a governança corporativa no Canadá impacta sobre diversidade, regionalidade, imigração e pluralidade. Estabelecido esse “road map”, os participantes teriam uma programação que incluiria o ecossistema de inovação canadense; a estrutura financeira, como bancos, fundos de pensão e mercado de capitais; diversos setores da iniciativa privada, incluindo empresas familiares; e as atividades do setor governamental e universitário do país.  

Essa estrutura permitiu que se analisasse a governança corporativa de forma aprofundada, levando em conta sua relevância em duas culturas distintas: a do Canadá anglo-saxão, em Toronto, e da área francófona, em Montreal. As diferenças entre ambas e as formas pelas quais as empresas buscam se adequar às duas permitiram uma visão mais panorâmica de como o tema é abordado no Canadá. 

Organizados em duas turmas, os participantes puderam participar de discussões sobre temas bastante variados, incluindo relações entre o Brasil e o Canadá, finanças, diversidade, agenda ESG, regulamentação de governança corporativa, inovação, educação, políticas públicas e questões jurídicas. Além disso, tiveram contato direto com empresas familiares do país, universidades, órgãos reguladores, centros de inovação, institutos de governança e bolsas de valores, entre outros. 

Iniciado em 1998, o programa do IBGC de visitar outros países para conhecer seus modelos de governança corporativa já incluiu Alemanha, Austrália, Cingapura, Estados Unidos, Finlândia, França, Israel, Reino Unido e Suécia, além do território de Hong Kong, na China. 

ESG colocado em funcionamento 

Têm crescido no Brasil, já há alguns anos, as discussões em torno da adoção de uma agenda ESG por parte das empresas. Enquanto muitas vezes esse debate ainda está no mundo das ideias, no Canadá os participantes da 11ª Jornada Técnica puderam ver esses princípios sendo aplicados na prática.  

Outro ponto que chamou a atenção dos participantes foi como a governança é colocada a serviço da inovação no Canadá – contribuindo para que haja uma integração mais eficaz entre as contribuições das empresas privadas, do governo e do universo acadêmico. As visitas a empresas, centros de pesquisas e universidades puderam mostrar como os três players atuam de forma sincronizada, permitindo o desenvolvimento de mais e melhores soluções tecnológicas inovadoras. 

O Canadá se caracteriza por ser um dos países que mais avança na adoção de práticas corporativas responsáveis, voltadas ao atendimento às necessidades dos diversos stakeholders. Ao contrário do Brasil, no Canadá não se recorre tanto à legislação vigente como forma de normatizar as relações entre empresas e acionistas. As estruturas de governança corporativa são mais “descentralizadas” – o que se explica tanto pelo caráter federativa do país quanto por sua cultura, mais voltada a conceder liberdade aos agentes econômicos. É estimulada a cooperação entre autoridades do poder público, entidades da iniciativa privada e associações profissionais, que estabelecem a regulamentação mais adequada para cada setor, levando em conta as demandas e necessidades das diversas partes interessadas. 

A preocupação em atuar dessa forma também está presente no mercado de capitais canadense, uma vez que aumenta cada vez mais a pressão da sociedade para que as empresas divulguem suas informações sobre temas ligados a critérios ESG. As bolsas TSX e TSX Venture Exchange, de Toronto, dispõem de programas de treinamento em governança para as empresas listadas e aderem a iniciativas internacionais, como a Sustainable Stock Exchange Initiative da Organização das Nações Unidas (ONU). 

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