Produzir e Preservar

Grupos empresariais responsáveis por 45% do PIB brasileiro defendem crescimento sustentável

 

por Andréa Ciaffone

Cuidar do planeta é o melhor negócio, e é justo pensar que cada vez mais empresas sabem disso. Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), é uma das vozes mais representativas a destacar a importância da união entre economia e ecologia. Reunindo cerca de 60 dos maiores grupos empresariais em atuação no Brasil, com faturamento equivalente a cerca de 45% do PIB e responsáveis por mais de 1 milhão de empregos diretos, o CEBDS, fundado em 1997, é pioneiro nas lutas em favor da sustentabilidade, biodiversidade, uso responsável da água e impacto social positivo. Na lista dos seus desafios estão o aquecimento global, as práticas destruidoras do patrimônio natural e as violações dos direitos humanos. Foi a primeira entidade no país a defender o conceito do tripé da sustentabilidade (triple bottom line), que é como ficou conhecido o objetivo de conquistar bons resultados nos planos econômico, social e ambiental. As mesmas prioridades estão alinhadas com as políticas de environmental and social governance (ESG), que se tornaram um dos assuntos prioritários nas empresas que atuam tanto no Brasil como no Canadá.

Representante no Brasil da rede do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), que tem cerca de 60 conselhos nacionais e regionais de 22 setores industriais em 36 países, além de 200 grupos empresariais presentes em todos os continentes, o CEBDS tem se mostrado bastante atuante no cenário político. Em julho de 2020, no auge das queimadas no Pantanal, Amazônia e Cerrado, publicou o Comunicado do Setor Empresarial Brasileiro, documento em que deixou claro que a possibilidade de atrair novos investimentos para o país é proporcional à capacidade de o governo estabelecer um novo paradigma econômico que concilie produtividade e preservação ambiental. Em meio a uma rotina movimentada, Marina Grossi falou à Explore sobre o momento em que vivemos. Na presidência do CEBDS desde 2010, a economista tem uma trajetória inspiradora: participou do conselho diretivo da coalizão do Banco Mundial voltada para a precificação de carbono; atuou, de 1997 a 2001, como negociadora do Brasil na Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP do Clima); e foi coordenadora, de 2001 a 2003, do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, além de ter participado das negociações do Protocolo de Kyoto. Toda essa experiência veio à tona em suas declarações.

Todo o contexto gerado pela pandemia fez muitas pessoas pararem para pensar na realidade atual e tomar consciência das fragilidades da nossa sociedade. Neste momento, seria possível pensar que as pessoas estariam mais empenhadas em defender questões como preservação ambiental, diversidade, inclusão, consumo consciente e cuidados com a água?
A pandemia acelerou um processo que já estava em andamento em diversos setores da sociedade. Ela evidenciou problemas para os quais os cientistas vêm alertando há anos, como as mudanças climáticas, por exemplo. Nesse contexto, entendo que temos a oportunidade de dar mais força para essa agenda entre governos e empresas, com mais esforço para uma ampla erradicação da pobreza extrema, e um engajamento maior do setor privado em questões relacionadas à saúde. Isso porque alguns dos problemas que foram negligenciados nas últimas décadas ficaram mais claros agora com a covid-19. A vulnerabilidade da população que vive em submoradias, sem água encanada ou esgoto, se destacou como um problema mais amplo, relacionado à nossa interdependência social e ambiental. Resultado do desequilíbrio ambiental, o novo coronavírus é uma evidência gritante da necessidade de criarmos uma sociedade mais resiliente. O Fórum de Davos de 2020 já havia destacado o tema da desigualdade social como prioritário nesta década da implementação dos ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável), demonstrando consciência de que a perpetuação de extremas desigualdades conspira contra a estabilidade político-econômica.

Qual seria o papel das empresas nesse contexto? De que forma o trabalho do CEBDS se torna ainda mais crucial?
O know-how empresarial é extremamente valioso e determinante, principalmente, para dar escala às boas práticas. A expectativa é que essa crise sanitária ofereça também a oportunidade de acelerar a agenda da sustentabilidade e de promover mais rapidamente a transição para uma nova economia de baixo carbono, com outra abordagem no trabalho e nas relações com o capital, a energia, a água e o consumo. Nesse contexto, o CEBDS cumpre o papel de puxar essa agenda junto às empresas e governos. No curto e médio prazo, promovemos matchmaking entre parceiros e damos visibilidade às ações das empresas, a fim de incentivar outras a fazer o mesmo. No longo prazo, estamos redesenhando a visão de futuro a partir de uma retomada que visa a impactos sociais positivos.

Cada vez mais o consumidor toma suas decisões de compra baseado na atuação da empresa. Ser uma empresa comprometida com a sustentabilidade é, portanto, um bom negócio?
Sem dúvida. Esse compromisso é fator fundamental para a sustentabilidade financeira dos negócios no longo prazo. A gente percebe um amadurecimento maior no mercado europeu, mas está claro que há um movimento global crescente. O consumidor brasileiro ainda privilegia o preço e a conveniência do produto. Nesse processo, torna-se essencial a implementação de políticas públicas que permitam a criação de produtos e serviços com preços competitivos, fomentando o desenvolvimento de uma economia de baixo carbono.

“O formato on-line das competições deixará um legado, mas a interação pessoal entre os jovens profissionais e os árbitros sempre será um componente valioso e essencial dessas iniciativas”

O Brasil corre o risco de sofrer sanções econômicas por causa do ritmo de desmatamento dos seus principais biomas?
Já está em curso uma pressão internacional de investidores e empresas compradoras de produtos brasileiros, preocupados com os índices de desmatamento nos biomas nacionais, principalmente na Amazônia e no Cerrado. O próprio Comunicado do Setor Empresarial, lançado em julho de 2020, é uma resposta nesse sentido: para o setor empresarial brasileiro, produzir e preservar não são verbos antagônicos. Nesse contexto, preocupa-nos, particularmente, a percepção negativa da imagem do Brasil no exterior em função dos índices de desmatamento na Amazônia e o enorme potencial de prejuízo para o desenvolvimento de negócios e de projetos fundamentais para o país. Também estamos interessados em desenvolver ações de longo prazo que permitam colocar o país no rumo de uma economia de baixo carbono quando a pandemia do novo coronavírus passar. A implementação de um mercado de carbono no Brasil é agenda prioritária.

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