O melhor da nova geração

Com o projeto NewGen, o CAM-CCBC vem continuamente ampliando a qualidade e a quantidade dos futuros profissionais de ADR

 

por Andréa Ciaffone

As novas gerações têm a missão de criar disrupção, de moldar o presente para poder conquistar o futuro que desejam. Com isso em mente, o CAM-CCBC desenvolveu o projeto NewGen, um programa de apoio aos estudantes e jovens profissionais que desejem atuar com métodos alternativos de solução de controvérsias (conhecidos como ADRs, do inglês). “Percebemos que havia, na nova geração de advogados, o desejo de participar desse universo. O CAM-CCBC, com sua tradição de pioneirismo, criou então um programa de atividades capaz
de acelerar a evolução dos profissionais de ADR”, explica Ana Flávia Furtado, assessora de desenvolvimento institucional do CAM-CCBC.

Para garantir que nenhum talento fique sem direcionamento, que as habilidades sejam incentivadas e que a tenacidade seja premiada, o projeto do CAM-CCBC, lançado em 2019, reúne uma série de facilidades determinantes na formação de um profissional de ADR: bolsas para cursos de curta duração; descontos que possibilitam a participação em eventos profissionais; assento em conselho editorial (de publicações da área); a possibilidade de representar uma associação de jovens profissionais em determinadas instâncias; e o comparecimento em workshops e conferências.

Dentre essas atividades, a que mais mobiliza a nova geração é o Willem C. Vis International Commercial Arbitration Moot, competição realizada anualmente em Viena (Áustria), cidade que historicamente é um centro de negociação entre a Europa Ocidental e a Oriental. Com a missão de promover o estudo do direito comercial internacional e da arbitragem e fornecer um treinamento prático aos alunos para a resolução de disputas comerciais internacionais, o Vis Moot se tornou uma espécie de olimpíada para a qual os estudantes treinam arduamente para ser mais fortes, mais rápidos, mais criativos e mais efetivos.
Como em várias modalidades esportivas, é preciso competir diretamente com times opostos. A competição tem duas fases: a redação das peças escritas do requerente e do requerido e a apresentação de argumentos em audiências orais realizadas perante experientes profissionais de arbitragem e professores universitários de várias partes do mundo. Os casos abordam questões decorrentes de transações comerciais realizadas sob a égide da Convenção das Nações Unidas sobre Contratos de Compra e Venda Internacional de Mercadorias e outras leis comerciais internacionais. A disputa é sempre resolvida no contexto de regras específicas adotadas pelos principais centros de arbitragem do mundo. Em 2017, por exemplo, a competição seguiu o Regulamento do CAM-CCBC.

“O formato on-line das competições deixará um legado, mas a interação pessoal entre os jovens profissionais e os árbitros sempre será um componente valioso e essencial dessas iniciativas”

A sintonia entre São Paulo e Viena é muito consistente, e isso se demonstra pelo prestígio dos eventos prévios da competição na capital austríaca, os Pré-Moots, organizados pelo Centro, que estão para o universo de ADR assim como os campeonatos geradores de índice olímpico estão para os esportes. O CAM-CCBC promove o Pré-Moot de São Paulo e também organiza o Pré-Moot de Hamburgo, na Alemanha. Em 2021, devido à pandemia, os dois eventos ocorreram em formato totalmente virtual, o que não tirou o entusiasmo dos participantes — cada competição contou com mais de 60 inscrições de times e 160 árbitros dedicados a estudar cada caso e avaliar os alunos.
Para Luiza Kömel, secretária-geral-adjunta do Centro, o formato virtual reproduz as audiências virtuais que se tornaram regra durante o período de isolamento social e oferecem mais uma oportunidade de aprendizado aos alunos, além de reduzir os custos com os deslocamentos das equipes. “Depois da pandemia, esse formato certamente deixará um legado, mas acredito que a interação pessoal entre os jovens profissionais e os árbitros é um componente valioso e essencial dessas iniciativas”, avalia.

Nesse sentido, o apoio de uma instituição consolidada e ativa como o CAM-CCBC faz toda a diferença. Durante o ano passado, a NewGen foi capaz de criar oportunidades de envolvimento profissional e acadêmico, bem como promover cursos, workshops e seminários relacionados a ADR, todos em formato virtual, permitindo a seus membros continuar desenvolvendo suas habilidades em ambiente digital.

“Há dez ou quinze anos os alunos debatiam no Vis Moot só porque era divertido; hoje eles têm consciência de que os escritórios de advocacia veem na competição um indicativo de habilidades essenciais”

“O comitê de gestão da NewGen gosta de imaginar um futuro no qual o Brasil terá importante parcela de líderes na comunidade global de ADR. As iniciativas da NewGen são basicamente contribuições para pintar esse quadro”, afirma Luísa Quintão, participante da iniciativa do CAM-CCBC e atualmente cursando mestrado na Universidade Duke, nos Estados Unidos. Ela argumenta que apoiar os estudantes é também uma forma de garantir a diversidade da comunidade de árbitros no futuro e destaca que o NewGen tem como princípio promover a diversidade em todas as formas: idade, raça, gênero, etnia, condição socioeconômica, orientação sexual, origem geográfica. “No que diz respeito ao mercado, a NewGen entende que a concorrência não tem o mesmo ponto de partida para todos os jovens profissionais, por isso procuramos criar oportunidades que contribuam para nivelar o campo de jogo e, em última instância, promover a diversidade nas áreas de ADR e influenciar os empregadores em suas contratações”, destaca a mestranda.

“O Brasil é um receptor frequente de investimentos estrangeiros nos setores público e privado, o que leva várias empresas internacionais a criar suas próprias mesas brasileiras, que incluem práticas de resolução de disputas. Além disso, o país também já é inequivocamente um importante centro de arbitragem em escala internacional e sede de algumas das maiores conferências e eventos internacionais de arbitragem, como o Congresso de Arbitragem CAM-CCBC. Tudo isso causa um impacto positivo na formação dos jovens profissionais de ADR”, constata Luísa.

Ampliar fronteiras é importante dentro e fora do universo de ADR. De acordo com Anthony Daimsis, advogado e professor da Universidade de Ottawa, onde atua como diretor do programa nacional, o profissional certo, que entende os benefícios da ADR, está bem-posicionado para ajudar as pessoas a resolver disputas fora dos tribunais de forma mais eficiente e com maior probabilidade de manter relacionamentos.

Sílvia Pachikoski, Patrícia Kobayashi, Carlos Forbes, Eleonora Coelho, Luiza Kömel e Paula Renata Costa no jantar oferecido pelo CAM- CCBC no Museu Albertina, em Viena, durante o Vis Moot 2019
No sentido horário, do alto: Luiza Kömel, Luísa Quintão, Anthony Daimsis, Ana Flávia Furtado

“As pequenas e médias empresas podem tirar proveito das alternativas à opção judicial cara e excessivamente processual. Um exemplo atual é como a arbitragem rapidamente se adaptou às audiências remotas, enquanto muitos tribunais em todo o mundo precisaram (e alguns ainda precisam) de tempo para se adequar e orientar os profissionais”, compara Daimsis, que tem fama de ser um excelente preparador de alunos para o Vis Moot e percebe uma mudança de comportamento em seus alunos.

“Os jovens de hoje são mais career-savvy, mais sabidos sobre questões profissionais do que antes. Há dez ou quinze anos os alunos debatiam no Vis Moot apenas porque era divertido, uma atividade que quebrava a monotonia do curso, hoje noto que os alunos têm consciência de que os escritórios de advocacia veem na participação deles um indicativo de habilidades essenciais.”

Diante da evolução da globalização, o universo das ADRs vem se expandindo continuamente e, por isso, demandando um número cada vez maior de profissionais. Esse aumento da quantidade, entretanto, traz a preocupação com a qualidade. “Hoje em dia, é difícil passar um dia sem receber um e-mail anunciando o último workshop de ADR de várias organizações. O desafio, portanto, é saber qual novo programa frequentar ou com qual ‘novo’ tópico se familiarizar”, diz o professor da Universidade de Ottawa. “O que eu aconselho a meus alunos, quer eles ouçam, quer não, é que se tornem especialistas autênticos. Não se espalhem muito, eu digo a eles. Construam bases sólidas porque, depois de construir uma base sólida, as pessoas perceberão rapidamente; assim que eles perceberem, você receberá ligações e mais trabalho do que terá tempo para aceitar”, prevê Daimsis.

A conquista do Oriente

O Vis East Moot dá aos estudantes a oportunidade de se aproximar dos mais importantes parceiros comerciais do Brasil na atualidade

Nos últimos 30 anos, com o avanço da globalização, os parceiros asiáticos se tornaram ainda mais vitais para países emergentes. Desde a década passada, a China vem se destacando consistentemente como o maior parceiro comercial do Brasil, sendo responsável por 34,1% de suas exportações totais. Por isso, ser capaz de realizar negociações complexas com parceiros asiáticos está na lista de prioridades de qualquer profissional de comércio exterior, incluindo, claro, os que atuam no setor de ADR.

Alinhado com essa realidade, o CAM-CCBC vem apoiando a participação dos brasileiros no Vis East Moot, versão asiática do evento vienense que ocorre em Hong Kong desde 2002.

Nos 18 anos desde sua criação, o Vis East, assim como o Willem C. Vis Moot, já mudaram tremendamente e se tornaram ainda mais internacionais. O Brasil é hoje uma das maiores jurisdições em número de equipes em Viena e, em 2021, teve número recorde de participantes no Vis East. “A competição em Hong Kong cresceu em importância, e as universidades muitas vezes preparam equipes separadas para aproveitar a dupla oportunidade de expor mais alunos a essa experiência”, explica Cesar Pereira, sócio da Justen, Pereira Oliveira & Talamini Advogados e principal incentivador da participação brasileira na competição asiática.

Justen Pereira

“O Vis East tem sido uma oportunidade essencial para os estudantes ocidentais serem pessoalmente expostos ao Oriente. Isso dá a eles, aos árbitros participantes, aos escritórios de advocacia e às organizações uma oportunidade incomparável de aprendizado e networking, tanto que muitas carreiras profissionais foram construídas em conexões feitas durante o Vis East. A oportunidade de uma experiência em primeira mão com a comunidade de ADR do Leste Asiático é algo que nenhum estudante ou profissional de ADR deve deixar passar”, aconselha.

Ele destaca que a competição Vis East é cercada por Pré-Moots, atividades promovidas por patrocinadores ou organizações de apoio na Ásia Oriental, o que dá, aos alunos e árbitros, mais oportunidades de networking. Na edição de 2021, várias organizações brasileiras e asiáticas, incluindo CAM-CCBC, Ibrachina, CIArb Brazil Branch e CIArb East Asia Branch, reuniram uma série de eventos on
-line discutindo vários aspectos das transações comerciais e resolução de disputas entre partes asiáticas e latino-americanas. “Esse é um bom exemplo de oportunidades criadas pelo envolvimento na competição. Posso atestar pessoalmente esse aspecto do Vis East, já que tenho feito em Hong Kong, ao longo dos muitos anos que venho participando, alguns dos meus melhores amigos, sócios de negócios e colegas internacionais de ADR”, comemora.

O tradicional jantar promovido pelo CAM-CCBC no Vis Moot, em Viena (2017): jovens profissionais dividem seu tempo na capital da Áustria entre competições e celebrações

A questão, portanto, passa a ser especular em que áreas haverá maior demanda futura por meios alternativos de solução de controvérsias. Para Daimsis, “o direito comercial continua sendo a área principal por várias razões, que incluem a rapidez dos empresários em avaliar quando há necessidade de se sentar e conversar e quando esse momento termina. Guiados por sua visão de resultados financeiros, eles são hábeis em tirar a emoção da equação”.

“Cada vez mais, no entanto, vejo o valor de aplicar ADRs a disputas que tradicionalmente usavam tribunais ou nunca viram a luz do dia. As estatísticas em meu próprio país, o Canadá, são preocupantes. O custo de acesso aos tribunais impede a resolução de um número desproporcional de disputas. Essa é uma atribuição de um sistema judiciário que é muito antigo, muito sobrecarregado e muito caro. Se seus usuários souberem usar, as ADRs podem fazer uma diferença real nesse problema de acesso. Pequenas empresas, por exemplo, podem usar ADRs baratas para resolver disputas menores”, analisa o professor.

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