babel inclusiva

Ambiente universitário é decisivo no desenvolvimento de pesquisadores estrangeiros

 

Por Ronald Sclavi

Na mesma sala de aula, junte brasileiros, chineses, peruanos, colombianos, mexicanos, porto-riquenhos, vietnamitas e libaneses; acrescente a essas diferentes nacionalidades a necessidade do isolamento imposta pela pandemia que vivemos; agora, tente conciliar idiomas, culturas, hábitos e histórias individuais, de modo que esse grupo possa cursar uma universidade de ponta, em busca de um aprendizado de qualidade.

Esse foi o cenário encontrado pela microbiologista Helena Ferreira Leal de Carvalho Toledo, que vivia em Salvador, Bahia, ao ingressar no programa de doutorado da Universidade de Montreal (UdeM), em 2020, pouco antes do início da pandemia de covid-19. O que poderia ser caótico, no entanto, transformou-se em uma experiência das mais ricas, tanto para ela quanto para os estrangeiros que esperavam encontrar, naquela universidade, um ambiente de excelência para desenvolver suas teses.

A princípio, a pesquisadora — especialista em bactérias resistentes em ambientes hospitalares, com mestrado pela Fundação Oswaldo Cruz — ansiava por oportunidades em uma universidade de língua inglesa, idioma que já dominava. Entretanto, diante da afinidade com pesquisadores da UdeM na sua área, iniciou a aproximação com essa escola francófona que tem mais de 140 anos de tradição.

Além da sinergia com os pesquisadores, a recepção oficial foi um dos motivos da sua escolha. Surpreendida com o site — que tem versão em português — e com o programa de embaixadores, Helena foi acolhida por brasileiros que a orientaram sobre as questões universitárias e em relação a imigração, documentação e outras formalidades essenciais para essa jornada.

Mesmo de forma remota, a doutoranda passou pelo processo chamado de “francisação”, que consiste em elevar o aluno do nível intermediário para um nível avançado de fluência. “O curso me preparou não só em termos do francês, mas também sobre o que esperar da universidade e da plataforma de ensino virtual”, conta ela. O processo também envolve técnicas de texto e debate específicas para o ambiente acadêmico.

Em seguida, a pesquisadora passou a cursar duas disciplinas optativas do seu doutorado. “Mesmo com algumas dificuldades, os professores são solícitos e não constrangem os alunos com dificuldades iniciais, como erros de linguagem. Também podemos encaminhar perguntas por e-mail e eles respondem muito atenciosamente”, destaca Helena. Aulas gravadas em vídeo e com transcrição disponível para os alunos também estão entre os recursos que auxiliaram Helena nesse primeiro momento de ensino remoto.

A permanência da brasileira no Canadá e parte da sua mensalidade são financiadas pelo Merit Scholarship Program for Foreign Students (PBEEE), projeto governamental instituído para acolher estudantes estrangeiros. A pesquisa de Helena também recebeu recursos públicos destinados ao Departamento de Microbiologia, Imunologia e Infectologia da UdeM.

O professor brasileiro Francisco Loiola, filósofo e PhD em psicopedagogia e titular da Faculdade de Educação da UdeM, ressalta que o índice de evasão entre os estrangeiros é surpreendentemente menor do que entre os nativos, graças à política de acolhimento a esses alunos. “É uma experiência que transformou a própria população do Québec. Hoje, há uma atitude social diferente para acompanhar a chegada desses estudantes”, afirma.

O docente lembra que o processo de admissão de um professor na universidade tem um olhar atento para suas habilidades didáticas. São cinco anos para que esse profissional alcance a condição de titular e, assim, seja definitivamente incorporado à universidade. Um dos instrumentos decisivos para a admissão é a avaliação dos alunos, que leva em conta 20 quesitos ligados a aspectos pedagógicos.

Loiola também salienta que a melhoria no ambiente de ensino canadense não se limita à educação superior. Nos primeiros anos escolares, as teses inclusivas têm merecido atenção social de ortopedagogos, que observam os alunos com deficiência de aprendizado para um acompanhamento que vai do ensino básico à universidade.

Mesmo reconhecendo a heterogeneidade dos estrangeiros que estudam na UdeM, o professor admite haver um ambiente cada vez preparado para as diferenças que marcam essa experiência universitária. “Há uma consciência em relação ao outro. Uma consciência inclusiva”, conclui.

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